Reflexões sobre Esperança e Transformação com São João Paulo II
“A esperança não nos decepciona…” (Rm 5, 5). Enquanto o calor atravessa a cerâmica da xícara que seguro agora entre as mãos e o vapor sobe lentamente, dissipando-se no ar, é impossível não pensar na natureza da espera. Preparar um bom café exige paciência, um aguardar silencioso enquanto a água extrai o melhor do grão. No entanto, essa não é uma espera passiva; é um processo ativo, transformador, que culmina em algo que nos desperta e nos impulsiona. Foi exatamente com essa passagem do apóstolo Paulo sobre a esperança que, numa manhã de quarta-feira, em 2 de dezembro de 1998, o Papa João Paulo II iniciou uma de suas mais belas catequeses. Dirigindo-se aos fiéis, o pontífice propôs uma reflexão profunda sobre o que significa, de fato, aguardar o Reino de Deus. Para muitos, a palavra “esperança” carrega um tom de resignação, um mero cruzar de braços diante das adversidades do presente enquanto se aguarda um futuro melhor. João Paulo II, contudo, resgata a força motriz dessa virtude, lembrando-nos de que a atitude fundamental da esperança cristã não nos afasta do mundo, mas nos lança profundamente nele.
Há uma tentação histórica e recorrente de acreditar que a espiritualidade é um sinônimo de alienação. Se o nosso destino final é a eternidade, por que deveríamos nos importar com as estruturas temporais, com a cultura, a política, a economia ou a arte? O Papa responde a essa inquietação com clareza: a esperança impele o cristão a não perder de vista a meta final, mas, simultaneamente, oferece motivações sólidas para o empenho cotidiano na transformação da realidade. A espiritualidade cristã não é uma espiritualidade de fuga ou de rejeição do mundo. Ela é uma espiritualidade de transfiguração. É nesse exato ponto que a sabedoria de um dos grandes pensadores cristãos do século XX ecoa com precisão. Em sua obra clássica, C. S. Lewis nos recorda que o desejo pelo eterno é o maior motor para a melhoria do presente:
“A esperança é uma das virtudes teologais. Isso significa que um anseio contínuo pelo mundo eterno não é uma forma de escapismo ou ilusão, mas uma das coisas que um cristão deve fazer. Isso não significa que devemos deixar o mundo presente como ele está. Se você ler a história, descobrirá que os cristãos que mais fizeram por este mundo foram justamente aqueles que mais pensaram no próximo.”
Essa transfiguração do mundo, no entanto, não acontece num passe de mágica. Ela exige o suor do rosto, a fadiga diária e o enfrentamento das contradições humanas. João Paulo II destaca que o Espírito Santo é quem infunde em nós a força para difundirmos na terra o fermento do Reino. É Ele quem nos capacita a olhar para as realidades terrenas — o nosso trabalho, os nossos estudos, a nossa família e até os nossos momentos de lazer — como sementes de eternidade. A esperança, portanto, não é um otimismo ingênuo que ignora a dor ou a dificuldade, mas uma certeza enraizada na ressurreição de Cristo. Para compreender a anatomia dessa virtude, a filosofia medieval nos oferece uma definição cirúrgica. São Tomás de Aquino, ao dissecar a natureza das virtudes teologais, afasta a esperança de qualquer sentimentalismo frágil e a coloca no terreno da coragem e da vontade:
“O objeto da esperança é um bem futuro, árduo, mas possível de ser alcançado.”
O termo “árduo” é fundamental aqui. Construir uma sociedade nova, baseada na justiça e na caridade, é uma tarefa monumental e, muitas vezes, exaustiva. É o bem árduo do qual fala o ‘Doutor Angélico’. Quando o Papa nos chama a ser “construtores de uma sociedade nova”, ele sabe que enfrentaremos o cansaço e a frustração. Contudo, a esperança nos garante que esse bem é “possível de ser alcançado”, não pelas nossas próprias forças isoladas, mas porque o Céu já desceu à terra. A ressurreição de Cristo já inaugurou o Reino, e nós somos convidados a ser coautores dessa obra no tempo presente. É uma antecipação da glória final, tecida nas pequenas e grandes escolhas de cada dia.
E onde encontramos o alimento para sustentar essa jornada árdua? João Paulo II aponta para a mesa. O sinal sacramental por excelência dessa realidade antecipada é a Eucaristia. Nela, o mundo começa a ser aquilo que será no fim dos tempos. A Eucaristia plasma a vida da comunidade e nos impulsiona a compartilhar não apenas o pão espiritual, mas também os bens materiais, em um espírito de profunda fraternidade. A Igreja torna-se, assim, “pão repartido” para o mundo. Há uma beleza poética em pensar nisso enquanto compartilhamos uma mesa de café. O ato de sentar-se com o outro, de servir uma bebida quente, de ouvir e partilhar a vida, carrega em si um reflexo pálido, mas real, dessa comunhão maior. A solidariedade, as obras de caridade e a ajuda recíproca nascem dessa mesma fonte. O pão e o vinho transubstanciados nos ensinam que a matéria deste mundo não é desprezível; ela é capaz de portar o divino.
Tudo o que é realizado na caridade de Cristo antecipa a ressurreição final. A arte que eleva o espírito, a ciência que cura, a técnica que facilita a vida humana e o trabalho honesto que sustenta a família são, quando vividos no espírito do Evangelho, testemunhos da ação de Deus na história. Não estamos apenas passando o tempo nesta terra; estamos preparando o material do qual o Reino será feito. A caridade e os seus frutos permanecerão. É essa certeza que nos impede de cair no cinismo ou no desespero quando as notícias são ruins ou quando o peso dos dias parece insuportável.
No fundo, toda essa espera ativa, todo esse esforço de transfiguração do cotidiano e toda essa esperança inabalável respondem a uma sede que nos constitui desde o nascimento. Não fomos feitos para a finitude. O nosso empenho no mundo é o reflexo de uma alma que sabe que pertence a outro lugar, mas que ama o jardim onde foi plantada e deseja vê-lo florescer. Santo Agostinho, com a sua genialidade inigualável, resumiu essa condição humana em uma das frases mais repetidas e verdadeiras da história do pensamento cristão:
“Fizeste-nos para ti, Senhor, e o nosso coração anda inquieto enquanto não descansar em ti.”
A xícara agora está vazia. O aroma ainda paira no ar, mas a bebida já cumpriu o seu papel: despertou os sentidos, aqueceu o corpo e renovou as energias. Assim deve ser a esperança em nossas vidas. Ela não nos convida a ficar sentados eternamente à mesa, contemplando o vapor, mas nos levanta da cadeira. Ela nos envia de volta ao escritório, à sala de aula, ao trânsito e ao convívio familiar com um olhar diferente. Um olhar que sabe que a justiça terá morada estável e que cada ato de amor, por menor que seja, é um tijolo na construção da eternidade. Que possamos, hoje, viver essa espiritualidade de ação. Que a nossa espera seja feita de passos firmes. E que, no meio da fadiga cotidiana, possamos ser o fermento de um mundo que, silenciosamente, já começa a ressuscitar.
Bibliografia
- JOÃO PAULO II, Papa. Audiência Geral: A esperança como espera e preparação do Reino de Deus. Vaticano, 2 de dezembro de 1998. Disponível nos arquivos da Santa Sé.
- LEWIS, C. S. Cristianismo Puro e Simples. Tradução de Gabriele Greggersen. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2017.
- AQUINO, Tomás de. Suma Teológica (II-II, q. 17, a. 1). São Paulo: Edições Loyola, 2001.
- AGOSTINHO, Santo. Confissões. Tradução de Maria Luiza Jardim Amarante. São Paulo: Paulus, 1997.
