“O inferno é o sofrimento de não poder mais amar” (Dostoiévski)
Há um detalhe curioso no café: ele nunca resolve as discussões, mas quase sempre as suspende. A xícara na mesa funciona como uma trégua combinada sem que ninguém proponha trégua alguma. Nestes tempos, porém, até a trégua anda difícil. As conversas esquentam antes do café esfriar. Há grupos de família em silêncio há meses, amizades suspensas por uma publicação, o vizinho de décadas reduzido a “gente daquele lado”. O país parece rachado ao meio, e a rachadura atravessa salas de estar, mesas de bar e até corredores de igreja.
Não é sobre nomes, siglas e nem propostas — é sobre um sentimento que se instalou em nós: a convicção de que quem pensa diferente deixou de ser apenas diferente e passou a ser inimigo. Um mal a ser derrotado, não uma pessoa a ser compreendida. Enquanto o café esfria, valem duas perguntas: o que esse ódio faz com quem odeia? E o que seria, afinal, amar quem não pensa como eu?
O prazer perigoso de estar acima
A divisão que hoje nos atravessa não nasce primeiro das ideias. Nasce da pertença. Somos, por natureza, animais de ‘tribo’ (não encontrei uma palavra melhor): precisamos pertencer, e toda ‘tribo’ se define também por aquilo que rejeita. O problema começa quando a ‘tribo’ deixa de ser um lugar de acolhida e vira uma arquibancada — um lugar de onde se olha para baixo. A vida pública, nas redes, virou camisa de futebol: torce-se mais do que se pensa, e o adversário não é mais aquele que erra, mas aquele que ameaça.
C.S. Lewis, que conhecia como poucos as armadilhas do coração humano, descreveu com precisão cirúrgica o motor silencioso dessa engrenagem:
“O orgulho é essencialmente competitivo: ele não encontra prazer em ter algo, mas em ter mais do que o outro.” — C.S. Lewis, em Cristianismo Puro e Simples
É o orgulho que transforma a diferença em hierarquia. Cada publicação é uma pequena arquibancada: o prazer não está em convencer, está em vencer; não está em ter razão, está em ter mais razão do que o outro. E assim a conversa morre antes de começar, porque ninguém escuta para entender — todos escutam para responder, e responder com vantagem. O orgulho divide o mundo em dois grupos: os que estão acima e os que deveriam admitir isso. Nenhum dos dois escuta.
O inferno de Dostoiévski
Foi Dostoiévski quem deu a este texto o seu título. Em Os Irmãos Karamázov, Dmitri tem um sonho estranho: vê-se condenado, e um “visitante” lhe explica que o inferno não é um fogo externo, mas um estado da alma — o sofrimento de não poder mais amar. Os condenados do sonho queimam não porque alguém os queima, mas porque se fecharam tanto no rancor que perderam, para sempre, a capacidade de amar.
A imagem é desconfortável porque inverte a nossa contabilidade moral. Tendemos a calcular o custo do ódio apenas para quem o recebe: a ofensa, a exclusão, a violência. Dostoiévski nos obriga a calcular também o custo para quem odeia. O ódio promete energia, dá a sensação de propósito, alimenta a ilusão de que somos justos e eles são perversos. Mas cobra à vista: rouba o sono, endurece o rosto, amarga a mesa. Quem se fecha no rancor contra “aquele lado” não percebe que está, aos poucos, construindo a própria cela — um lugar onde o outro não entra, mas de onde o amor não consegue mais sair.
Talvez seja por isso que as Escrituras sejam tão duras com o ódio disfarçado de zelo. “Se alguém disser: ‘Amo a Deus’, mas odeia seu irmão, é um mentiroso”, escreve João, sem meias palavras (1 João 4.20a). Não há como amar a Deus, invisível, desprezando o irmão, visível, que está diante de nós com uma opinião diferente. O desprezo pelo “outro lado” não é apenas um problema de convivência: é um problema espiritual, que se decide dentro de cada coração.
O juiz cego
A polarização vive de julgamento. Rotulamos antes de ouvir: “corrupto”, “alienado”, “fanático”. Os rótulos poupam o trabalho de conhecer, e é exatamente isso que os torna tão eficientes — e tão letais. Quem rotula não precisa escutar a história por trás da opinião, a ferida por trás do grito, o medo por trás da raiva.
Dietrich Bonhoeffer, um pastor que morreu por resistir ao nazismo e que sabia, como poucos, o que é conviver com o mal em larga escala, alertou para a cegueira que o julgamento produz em nós:
“Ao julgar os outros, cego-me para o meu próprio mal e para a graça que os outros têm direito de receber de mim.” — Dietrich Bonhoeffer, em Vida em Comunidade
Jesus havia dito algo parecido, com a imagem que todos conhecemos: por que olhamos o cisco no olho do irmão e não vemos a trave no nosso? (Mateus 7.3). A pergunta não é um convite à passividade diante das injustiças — Bonhoeffer mesmo não foi passivo. É um convite à honestidade: antes de apontar o mal do outro lado, reconhecer que a capacidade do mal também habita em mim. Como escreveu Solzhenitsyn, a linha que separa o bem e o mal não passa entre Estados, nem entre classes, nem entre partidos — passa por cada coração humano. Quem começa por aí escuta diferente.
Amar quem não pensa como eu
Se o diagnóstico é o orgulho, o julgamento e o ódio, o caminho só pode ser um: o amor. Não o amor como sentimento morno, mas o amor como decisão. Jesus não pediu que concordássemos uns com os outros — isso seria impossível e, talvez, nem desejável, pois do atrito de ideias nasce o que há de melhor. Ele pediu algo mais radical: “Amai os vossos inimigos” (Mateus 5.44). Se vale amar o inimigo, quanto mais vale amar o parente de voto contrário, o amigo que se calou, o colega da ‘tribo’ oposta.
Amar não é aprovar. É possível — e necessário — discordar com respeito, debater com firmeza, resistir às injustiças com todas as forças. Amar é querer o bem de quem não quer o nosso bem; é tratar como pessoa aquele que o clima dos dias insiste em tratar como rótulo. E amar, no dia a dia, tem formas muito concretas: escutar antes de responder, perguntar antes de rotular, reconhecer quando o outro tem razão, pedir perdão quando não temos.
O dramaturgo romano Terêncio escreveu, há mais de dois mil anos, uma frase que continua atual: “Sou homem (não como identidade de gênero), e nada do que é humano me é estranho.” Nada humano me é estranho — nem o medo do outro lado, nem a raiva do meu, nem a esperança de ambos. Antes de sermos eleitores de campos opostos, somos criaturas iguais: amamos os mesmos filhos, tememos as mesmas perdas, queremos, no fundo, o mesmo país em paz.
E aqui cabe a frase de Santo Agostinho que resume tudo:
“Ama, e faze o que quiseres.” — Santo Agostinho, na Epístola 211
A frase parece perigosa à primeira vista — amar e fazer o que quiser? Mas é exatamente o contrário: quem ama de verdade não pode fazer qualquer coisa. O amor vira critério: antes de publicar, antes de responder, antes de cortar alguém da vida, a pergunta que decide tudo é esta — isso ama? Se a resposta for não, a resposta está errada, por mais razão que tenhamos. O amor não anula a verdade; dá a ela o endereço certo e o tom certo.
A mesa que reúne
Fecho com a imagem que abriu este texto: a mesa do café. Há uma razão para que, em tantas culturas e tantas religiões, a reconciliação passe pela comida compartilhada. Na mesa, ninguém bebe café de pé; todos se sentam à mesma altura, seguram xícaras iguais, expõem as mãos ao mesmo vapor. A mesa nivela. É difícil demonizar quem passa o açúcar…
A proposta deste texto não é neutralidade nem silêncio cívico. Podemos — e devemos — ter opiniões, votar com convicção, defender o que acreditamos. Mas nenhuma opinião justifica deixar de amar; nenhuma causa é maior do que a pessoa do outro. O inferno de Dostoiévski se desfaz no exato lugar onde alguém decide amar primeiro: escutar primeiro, perdoar primeiro, servir primeiro.
Na próxima vez que a conversa esquentar e o café esfriar, talvez a melhor decisão seja simples: levantar, buscar o bule e servir outro café. Às duas xícaras. A trégua que o mundo não propõe, nós podemos propor — um gole de cada vez.
Bibliografia
- AGOSTINHO, Santo. Epístola 211 (séc. V).
- BÍBLIA SAGRADA. Mateus 5.44; Mateus 7.3-5; 1 João 4.20.
- BONHOEFFER, Dietrich. Vida em Comunidade (Gemeinsames Leben), 1939.
- DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Os Irmãos Karamázov, 1880.
- LEWIS, C.S. Cristianismo Puro e Simples (Mere Christianity), 1952.
- SOLZHENITSYN, Alexander. O Arquipélago Gulag, 1973.
- TERÊNCIO. Heautontimorumenos, séc. II a.C.
