“Escolher Cristo é Escolher Ser Transformado” (C.S.Lewis)
“Deus não quer apenas um bom comportamento de nós; Ele quer que nos tornemos um certo tipo de pessoa.” – C.S. Lewis, Mero Cristianismo.
Pegue sua xícara! Nossa conversa de hoje tem a intenção de ser uma reflexão e uma transformação profunda. A frase que abre nosso artigo, proferida pelo brilhante C.S. Lewis (aquele mesmo do “Alice no País das Maravilhas” e tantos outros), nos convida a mergulhar em uma das ideias mais revolucionárias e, ao mesmo tempo, mais simples do cristianismo: a transformação. Não se trata apenas de seguir regras ou de adotar um conjunto de crenças, mas de uma mudança radical no nosso próprio ser, uma metamorfose que nos leva a um novo patamar de existência. É sobre isso que Lewis nos fala em seu atemporal “Mero Cristianismo”, um livro que, como um bom café, nos desperta para realidades que talvez estivessem adormecidas em nós.
Em um mundo que constantemente nos oferece atalhos para a felicidade e soluções rápidas para nossos dilemas, a proposta de Lewis pode parecer contraintuitiva. Ele não nos vende uma fórmula mágica, mas nos convida a uma jornada de autodescoberta e, mais importante, de redescoberta de Deus e de nós mesmos. A transformação de que ele fala não é superficial, não é uma maquiagem para a alma, mas uma reengenharia profunda do nosso interior, que começa com uma escolha consciente e se desdobra em uma vida inteira de crescimento.
O Convite de Lewis: Um Café com a Verdade
C.S. Lewis, um ex-ateu que se tornou um dos maiores apologistas cristãos do século XX, tinha uma habilidade ímpar de desmistificar conceitos complexos, tornando-os acessíveis a todos. “Mero Cristianismo” nasceu de uma série de palestras radiofônicas que ele proferiu durante a Segunda Guerra Mundial, em um momento de grande incerteza e busca por sentido. Seu objetivo era apresentar o “cristianismo puro e simples”, as verdades centrais que unem as diversas denominações cristãs, sem se prender a dogmas específicos de cada uma. Ele queria mostrar que, por trás das diferenças, existe um núcleo comum de fé que é logicamente consistente e profundamente transformador.
Lewis começa sua argumentação com a observação da Lei Moral, aquela voz interior que nos diz o que é certo e errado, que nos faz sentir vergonha quando agimos mal e que nos impulsiona a buscar justiça. Ele argumenta que essa lei universal, presente em todas as culturas e em todos os tempos, não pode ser apenas um produto da sociedade ou da evolução. Ela aponta para algo além de nós, para um Legislador Moral. E é aqui que a transformação começa: no reconhecimento de que não estamos sozinhos no universo, e que há um padrão de bondade ao qual somos chamados a nos conformar.
“Fizeste-nos para Ti, Senhor, e o nosso coração anda inquieto enquanto não descansar em Ti.” – Santo Agostinho, Confissões.
Essa inquietação, tão bem descrita por Agostinho, é o ponto de partida para a busca por algo maior. Lewis nos mostra que, ao tentarmos viver de acordo com essa Lei Moral por nossas próprias forças, inevitavelmente falhamos. Percebemos nossa incapacidade de ser “bons” o suficiente, de alcançar o padrão que nossa própria consciência nos impõe. É nesse momento de humildade e reconhecimento de nossa falha que a necessidade de uma transformação se torna evidente. Não podemos nos puxar para fora do pântano sozinhos; precisamos de uma mão estendida.
A Transformação: De Criatura a Nova Criação
Para Lewis, a escolha por Cristo não é apenas uma decisão intelectual ou emocional; é uma entrega, um convite para que Deus opere em nós. Ele usa a analogia de uma casa: Deus não quer apenas consertar um vazamento ou pintar uma parede; Ele quer demolir a casa velha e construir uma nova, muito melhor, no lugar. Essa é a essência da transformação cristã: não um mero aprimoramento do “eu” antigo, mas a criação de um “eu” totalmente novo.
Ele explica que o cristianismo não é uma religião de “faça você mesmo”, mas uma religião de “deixe Deus fazer”. A transformação não é algo que conquistamos por mérito próprio, mas um dom da graça divina. Quando escolhemos Cristo, estamos escolhendo permitir que Ele trabalhe em nós, nos moldando à Sua imagem. Isso significa abrir mão de nossa própria vontade, de nossos próprios planos e de nossa própria ideia de quem deveríamos ser, para abraçar a visão de Deus para nós.
“A graça não destrói a natureza, mas a aperfeiçoa.” – Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica.
A frase de Tomás de Aquino ressoa perfeitamente com a ideia de Lewis. A transformação não anula quem somos, mas eleva nossa natureza, nos capacitando a viver de uma forma que antes era impossível. É como um motor que recebe um combustível de alta octanagem: ele não se torna um motor diferente, mas opera com uma potência e eficiência muito maiores. A graça de Deus nos capacita a amar, perdoar, ter paciência e viver com alegria, mesmo em meio às adversidades (leia o artigo “A Graça vem rápido, silenciosamente, leve como uma pena” no Blog).
Lewis enfatiza que essa transformação não é um evento único, mas um processo contínuo. Ele a compara a um “bom contágio”, uma “infecção” divina que se espalha por todo o nosso ser. Começa com a aceitação de Cristo e continua ao longo de toda a vida, à medida que nos esforçamos para viver de acordo com os princípios do Reino de Deus. É um caminho de aprendizado, de quedas e de levantamentos, mas sempre com a certeza de que o Mestre está ao nosso lado, nos guiando e nos capacitando.
O Desafio de Ser um “Pequeno Cristo”
Um dos conceitos mais impactantes de Lewis é a ideia de que, ao escolher Cristo, somos chamados a nos tornar “pequenos Cristos”. Não se trata de uma arrogância de nos igualarmos a Ele, mas de um convite a refletir Sua imagem e caráter no mundo. Isso significa amar o próximo como a nós mesmos, perdoar aqueles que nos ofendem, buscar a justiça, praticar a misericórdia e viver com integridade. É um chamado a viver uma vida que seja um testemunho visível da transformação que ocorreu em nós.
Essa é a parte prática da transformação. Não é apenas uma experiência mística ou um sentimento interior; ela se manifesta em nossas ações, em nossas palavras, em nossos relacionamentos. Uma pessoa transformada não é perfeita, mas está em constante processo de aperfeiçoamento, buscando refletir cada vez mais a luz de Cristo.
“A tua vontade é a nossa paz.” – Dante Alighieri, A Divina Comédia.
A paz de que Dante fala não é a ausência de conflitos externos, mas a harmonia interior que surge quando nossa vontade se alinha com a vontade divina. É a paz que vem da certeza de que estamos no caminho certo, de que estamos vivendo de acordo com o propósito para o qual fomos criados. Essa paz é um fruto da transformação, um sinal de que a escolha por Cristo está produzindo seus efeitos em nossa alma.
A transformação também implica em uma mudança de perspectiva. Começamos a ver o mundo, as pessoas e a nós mesmos através dos olhos de Deus. Nossas prioridades mudam, nossos valores se reajustam. O que antes parecia importante pode perder o brilho, e o que antes era negligenciado pode ganhar um novo significado. É uma reorientação completa da bússola da nossa vida.
A Jornada Contínua e a Esperança do Café
A vida cristã, como Lewis a apresenta, não é um destino, mas uma jornada. A transformação é um processo contínuo, que dura a vida inteira. Haverá momentos de alegria e de clareza, mas também momentos de dúvida e de luta. No entanto, a promessa é que, ao escolher Cristo, estamos escolhendo um caminho que nos leva à plenitude, à verdadeira vida.
“A vida só pode ser compreendida olhando-se para trás, mas só pode ser vivida olhando-se para a frente.” – Søren Kierkegaard, Diários.
A sabedoria de Kierkegaard nos lembra que, embora possamos refletir sobre o passado para entender nossa jornada, a vida nos chama a seguir em frente, a viver o presente e a abraçar o futuro com esperança. A transformação cristã é exatamente isso: um olhar para o futuro, para o que podemos nos tornar em Cristo, sem nos prendermos às amarras do passado.
Então, enquanto saboreamos o último gole do nosso café, somos convidados a refletir: o que significa para nós “escolher Cristo é escolher ser transformado”? É um convite a examinar nossas vidas, a questionar nossas prioridades e a considerar a possibilidade de uma mudança profunda, de uma nova criação. É a promessa de que, ao nos entregarmos ao Criador, Ele nos moldará em algo muito mais belo e significativo do que poderíamos imaginar por nós mesmos.
A transformação não é fácil, mas é infinitamente recompensadora. É a jornada de se tornar a pessoa que Deus sempre quis que você fosse. E essa é uma jornada que vale a pena ser vivida, um gole de cada vez, com a certeza de que o melhor ainda está por vir.
E você, já considerou essa transformação?
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BIBLIOGRAFIA
- Lewis, C.S. Mero Cristianismo. Tradução de Henrique Elfes. São Paulo: Quadrante, 1997.
- Agostinho, Santo. Confissões. Coleção Os Pensadores. Tradução de J. Oliveira Santos e A. Ambrósio de Pina. São Paulo: Nova Cultural, 1996.
- Alighieri, Dante. A Divina Comédia. Tradução de Italo Eugenio Mauro. São Paulo: Editora 34, 1998.
- Kierkegaard, Søren. Diários. Tradução de João A. A. Baptista. São Paulo: Paulus, 1998. (Nota: A citação é uma paráfrase comum de uma ideia central de Kierkegaard, frequentemente encontrada em seus diários e obras como Ou Isso ou Aquilo).
- Tomás de Aquino, Santo. Suma Teológica. Tradução de Alexandre Corrêa. São Paulo: Loyola, 2001.
- Imagem do artigo: Composição VII, Wassily Kandinsky, 1913, em exposição na Galeria Tretyakov, Moscou
